Início arrow Início arrow Há Quase 30 anos!...
Há Quase 30 anos!... PDF Imprimir e-mail
08-Jun-2009

686 Visitas

 

 Quando em Setembro de 1979 me alistei nas fileiras de Comissários do Autódromo (que nesta altura se encontravam entre a extinção de um clube, o CAE, e a criação de outro, a ACDME), não havia, à disposição dos comissários, quase nada do que existe hoje. E ainda existem algumas lacunas!... Contudo, a camaradagem e a dedicação então existentes, deixam, hoje, profundas saudades... Naquela época, a “farda” era um colete, e uma braçadeira para transportar o cartão. Licenças, nem falar nelas! A regulamentação era consultada na sede do clube, ou nos escritórios da Autodril, entidade detentora do autódromo. Nem anuários, fotocópias nem de perto, e, da internet, nem em sonhos se falava, (penso que o termo é de meados dos anos noventa). A rede de rádios era composta por meia dúzia de “macanudos” que, por meio CB (Banda de Cidadão), lá iam informando a direcção de prova das ocorrências dignas desse nome. Os relatórios eram feitos em papel de carta da Autodril (sempre dava algum ar oficial à coisa!...).

 

Os comissários viam-se de madrugada em frente à manutenção. Esta era liderada pelo Exmo. Sr. Álvaro Bugalho, que antes de nos entregar o material que iria servir de ferramenta para o dia que se avizinhava (um balde de absorvente, um jogo de bandeiras, um extintor e uma vassoura), nos presenteava com o habitual sermão alusivo à conservação e devolução do material em boas condições, ao fim do dia. Não havia distribuição de material pelos postos, como há hoje. Cada um que se “desenrascasse”! No meu caso, era de “V5”, ou à pendura de um colega que tivesse um carrito. Por vezes, era o homem do rádio que “desenrascava” a boleia. Havendo boleia, sempre poderíamos ter a “benesse” de levar também um chapéu-de-sol... Isto de transportar o material de mota tinha uma arte. Mas o dito chapéu não entrava bem naquela equação...

O material danificado devia de ser identificado nesta altura, à porta da manutenção. Caso contrário, depois de chegados aos postos, seria longa a caminhada de volta, até ao local de partida, para se poder proceder à troca do mesmo. E isto seria contemplado com o respectivo “responso” do Sr. Bugalho!

Os horários eram os que vinham no jornal e que raramente batiam certo. Neste particular, as diferenças para os dias de hoje quase não existem. Para as listas de inscritos, a solução era a mesma. Tínhamos o tempero de, por vezes, ter de se “adivinhar” quem era o número “tal”, e que carro era aquele, pois, “por normal omissão”, não vinha mencionado no “pasquim” semanal, ou, então, era, pura e simplesmente, o “NN”.

E assim eram aqueles dias. Íamos de madrugada para o posto, e apenas saíamos do mesmo após a passagem do carro oficial (se a memória não me falha, uma carrinha Fiat, verde, do Sr Mário Lima) com a bandeira verde. Isto era algo que, ao fim das longas horas por ali passadas, era aguardado com alguma ansiedade. E era sempre ao fim da tarde, muitas vezes já lusco fusco...

Ninguém reclamava das refeições, pois eram de fabrico caseiro, e cada um trazia de casa o que mais lhe conviesse. Quanto a águas (cervejolas, tintos e outras variações) eram de responsabilidade individual, e tinham de durar o dia todo. Não havia cá perguntas pelo rádio (que também não havia) de quando vêm distribuir a água, e se não poderá haver um reforço dessa distribuição... por causa do calor!!!

Os dias eram longos, e sem se saber o que vinha de seguida. As idas aos sanitários eram muito curiosas. No meu caso, beneficiava de um buraco numa coisa a que chamavam “rede do autódromo”, para visitar um arbusto recatado, onde aliviava as minhas mais básicas necessidades físicas. Quando os elementos femininos tinham necessidade de se deslocar ao WC, era coisita para uma hora... a “penantes”!... Não podiam estar muito aflitas...

O espírito de dedicação, e camaradagem, eram enormes! No fim do dia reuníamo-nos todos no “bar da Tia Alzira”, para então fantasiarmos, em alongadas e acaloradas descrições, sobre o que tinham sido simples “pionassas” ou outras peripécias com que os pilotos nos entusiasmavam, ou se dignavam presentear-nos.

 

Na entrada da antiga curva dois, havia um posto com 3 carolas que, que de maneira ordenada, dividiam as suas tarefas. Como descrito mais acima, não havia rádios, nem o Jorge Gonçalves a vaticinar, de modo certeiro, o início das dobragens... Então, a solução era recorrer a um conta voltas improvisado, por meio de pedras. Os pilotos da frente eram memorizados, e sempre que passavam, lá ia uma pedrita para o lado das voltas percorridas. Hoje em dia pergunta-se à Torre, de uma forma exaustiva, e despropositada, em que ponto da corrida estamos, e quem são os 3 primeiros classificados. Mais parece que os “comissários de hoje” não estão na pista, mas sim a vaguear por um centro comercial qualquer!...

A minha primeira prova foi no posto do lado oposto à saída das boxes, mesmo na esquina sul da bancada A. Era uma zona privilegiada, e até tinha uma corneta de som a 2 metros da cabeça. Ainda tenho bem presente o timbre de voz do Manuel Celeiro, e ainda sei de cor o anúncio da Pepsi Cola. Esta minha auspiciosa estreia foi sob a tutela de um catedrático, jovem estudante de engenharia civil, de nome Alves Costa. As indicações dadas de manhã foram no sentido de olhar para a zona do início da recta, manter-me longe do “rail”, e não mexer nas bandeiras.

Na partida para os 300Km do Estoril, em motas, apanhei o que viria a ser o primeiro de muitos grandes “cagaços”. A partida era tipo LeMans, com as motos todas alinhadas no muro das boxes. Enquanto as arrumavam, esta pobre alma não adivinhava o que se iria seguir! Dada a bandeira, eis que os pilotos se “precipitaram” para as respectivas motas, atravessando  a pista a correr. Num ápice,  parecia que vinham todos para o meu posto! Nesta altura, confesso que considerei acabar a “minha vida artística” e dedicar-me ao Golf!...A segunda prova já foi num local tecnicamente mais trabalhoso, com a sábia tutela do não menos catedrático Leonel Cavaco. O posto era na antiga curva que ligava a curva 3 à curva 7, uma espectacular esquerda com uma fantástica lomba no meio. Aqui, e com um patrono menos severo, já tive mais liberdade. Numa sessão de treinos de motos, uma bisarma resolveu deixar o escape a escassos metros do posto. Eu, cheio de “sangue na guelra”, rapidamente me dispus à nobre missão de fazer a minha primeira intervenção em pista, e remover o dito escape da dita. O sábio chefe anuiu, com um rasgado sorriso. Mais rápido que um relâmpago, lá estava eu a desobstruir a pista. “F……..”, isto queima!!! gritei eu, com a surpresa dos “naifes” nas andanças... Ao que o sábio mestre retorquiu:  “as luvas são para estar sempre calçadas!”. Quando regressava ao posto, ele virou-se para mim, e disse: “o escape contínua na pista, desenrasca-te!” Aí, e com as mãos em brasa, e o ego na mó de baixo, tinha de arranjar uma saída airosa para a situação. A solução encontrada foi à base da biqueirada, até o escape estar encostado ao “rail”, fora de pista.Por estas, e por outras, é que quando a minha segunda geração se iniciou nas lides de pista, a prenda, para cada uma, foi um par de luvas! Por ora, não vos maço mais a paciência, pois vou aproveitar para teclar em outros assuntos mais actuais.Eduardo FreitasSócio número 8
Actualizado em ( 08-Jun-2009 )
 
< Artigo anterior   Artigo seguinte >

Inquérito

Qual a importância do Autodromo do Algarve para a revitalização do desporto motorizado nacional?
 

Tempo

Estoril, Portugal
Temp: 20°C
Wind Chill: 20°C
Humidity: 83%
Speed: 23 km/h
Direct.: 350°
Barom.: 1016.9 mb
N
Show more details

Sites Relacionados

Procurar